Atividade repentina 2 - Kayo Oliveira
“Reflexado”
O café acalentador sobre a mesa esfriava enquanto eu o
observava na mesa a frente. Era um observar delicado e sutil. Aquele garoto na
mesa em frente a minha, sentado de perfil, parecia misterioso tanto quanto se
sentia exposto, como um quadro milenar em destaque no museu, quanto mais
exposto estava, mais indecifrável se tornava. Tomei o ato de entendê-lo como um
desafio.
A mochila, colocada despreocupada e desajeitadamente ao pé
da cadeira, parecia vazia. Pendurada a tiracolo havia outra bolsa, essa estava
estufada, e ele manuseava com cuidado. Enquanto comia, aos poucos, ele parecia
se esconder, como uma tartaruga se protegendo da luz solar forte em sua casca.
Ao terminar de comer, se levantou para pagar a refeição e tirou da mochila
vazia a carteira. “Quem é que coloca os valores em uma mochila vazia e a deixa
em qualquer canto?” - eu me perguntava, girando a cabeça para manter meus olhos
fixos no rapaz até onde desse.
Terminei o café e me sentei no banco da praça, ainda me
questionando sobre o garoto comendo sozinho na cantina. Um grupo com cinco
pessoas se aproxima e senta na grama, atrás do banco onde eu me encontrava, e
lá estava o garoto outra vez. Naquele momento ele estava com fones de ouvidos,
ria e falava alto. Ele parecia seguro, sem o casaco o qual eu não tinha
reparado que usava antes, mas agora senti falta. Esforcei-me para ouvir a
conversa, mas parecia impossível focar em algo. Eram conversas aleatórias e
superficiais, desde desabafos em forma de piada, até conversas ensandecidas
sobre filmes, musicas e astros. Essas coisas pareciam não importar muito para
os outros, mas ele tinha a necessidade de se fazer escutar.
Eu os observava tão, mas tão atentamente, que em dado
momento me perdi. Acabei perdendo-o de vista. Resolvi ignorar a falta que ele
fazia ali, mas perdi o fascínio que antes me envolvia. Resolvi ir ao banheiro,
talvez para desanuviar a mente, talvez por necessidades fisiológicas... Um
pouco dos dois. Quando saí da cabine, encontrei o garoto novamente, não como
antes, nos encontramos de frente.
Ficamos um bom tempo nos encarando, agora eu podia ver
claramente. As olheiras que outrora não pareciam estar ali; os ombros arqueados
que, agora sozinhos, pareciam imponentes; os óculos tortos e com lente
arranhada. Abaixei para lavar o rosto, parado de frente para ele e quando
levantei, ele ainda estava ali. Sorri e ele respondeu instantaneamente,
tínhamos o mesmo sorriso. Vê-lo sorrir ali naquele espelho me aqueceu mais que
o café, talvez eu devesse ser mais gentil com ele mais vezes.
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