Atividade Repentina 3 (lojista) - Queima de Estoque

 Queima de Estoque

    Eu estava sentado no meu barato sofá bege manchado enquanto comia uma quentinha fria e assistia ao jogo do Bota Fogo na minha pequena TV de dez polegadas. Era um almoço qualquer naquele calorento escritório de quinze metros quadrados. De repente, vi no canto direito de minha visão periférica a luz laranja das inconvenientes chamas que consumiam o meu tão precioso fogão de quatro bocas.

    Fiquei que nem um paciente do AACD: paralisado. A gente sempre pensa que essas coisas nunca vão acontecer conosco. A fumaça começou a penetrar minhas narinas e nublar meus pensamentos, mas eu precisava continuar focado, pois havia quatrocentos e trinta e sete reais e vinte e dois centavos na caixa registradora com gaveta eletrônica da loja. Com as pernas bambas de uma prostituta em fim de expediente, corri para salvar meu tão suado papel-moeda inflamável. Infelizmente a Julia, minha funcionária, acabou tropeçando na vassoura com cabo de aço reforçado do kit de limpeza doméstica e torcendo o tornozelo. Quando, há uma distância segura do incêndio, me assegurei de que a caixa registradora estava a salvo - e longe de olhares aproveitadores - já era tarde demais; o fogo havia consumido todos os cinco metros daquela bela faixada de mogno vermelho da minha humilde lojinha.

    Foi um dia triste. Ela era a minha melhor amiga. Era prestativa, me fazia rir, ajudava com as contas e até me abrigava quando as coisas começavam a esquentar lá em casa... Apesar de ser uma enorme perda, sei que em breve vou superar seus belos cem metros quadrados de espaço útil. Nunca é tarde para abrir um novo negócio. Acho que agora vou para a área da gastronomia... Pensando bem, é melhor não mexer com fogões de quatro bocas por um tempo.

    Sobre a Julia? Eu paguei à família dela o salário daquele mês. Só metade, claro, pois ainda estávamos no dia vinte e aquele mês havia sido bem morno. Ao menos não terão que pagar a cremação, e um caixão certamente seria um exagero dispensável tendo em vista o que sobrou da coitada. Bom, é melhor eu parar de me meter na vida dos outros. Já deve ser difícil para eles, não quero pôr mais lenha nessa fogueira. Como dizia a minha falecida mãe: “quem vê a barba do vizinho arder, põe a sua de molho”.

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