Atividade de casa 4 - Kayo Oliveira
Confissões Fidelíssimas
“- Que lugar estranho. Aqui está quente... Vou tirar meu casaco. Quem é aquela... Espera... O que você vai fazer? Não! O bico do golfinho, não. Por que você fez isso? Cortar um animal inofensivo na guilhotina, seu monstro.
-O que você deseja? – a silhueta
saiu da sombra púrpura. Era uma bruxa, daquelas de desenho. Com vassoura e
tudo.
-Que eu desejo? Desapareça. – a
bruxa seguiu para o fundo e passou por uma cortina – Então é ali a saída?!
Segui em direção à cortina e
quando passei, lá estava ela novamente. Dessa vez amarrada a um tronco. Fui me
aproximando e senti algo pesar na mão, olhei, era uma tocha, acesa, iluminando
o ambiente com uma forte luz vermelho alaranjada. Quando levantei o olhar
novamente, a bruxa havia desaparecido e a tocha agora iluminava o corpo desnudo
de Elisa.
-O que? – perguntei em ar de
exclamação, ela é exatamente a mesma.
-Você vai me matar? – ela
pergunta em tom ingênuo.
-Eu...? – levantei a tocha para
observá-la melhor, estamos mais próximas do que eu percebi – Não!
Ela sopra a tocha, apagando-a e
tornando o ambiente escuro.”
-Ahn! Arf! – acordo puxando ar,
assustada e o solto em uma arfada de alívio em seguida. – Estou na igreja, foi
só um cochilo... Que horas... Dez da noite?! Eu deveria estar em casa!
Levanto do banco, com dificuldade
e olho ao redor. A igreja está fechada, a iluminação interna vem dos vitrais e
dos dois oratórios nas laterais.
O sonho que me despertou não sai
da cabeça. O golfinho, Elisa soprando a tocha… Está gravado na memória como se
eu realmente tivesse vivido isso. Não vejo Elisa desde que tínhamos uns 15,
éramos melhores amigas inseparáveis, mas uma noite ela me confessou ter beijado
meu namorado e brigamos feio. Foi então que eu disse que ele se casasse comigo,
e o homem acatou. Hoje temos uma família feliz, com problemas, como todas têm,
mas feliz.
Olho para o lado e pude ver,
deixado no banco, um panfleto onde se encontra grafado em letras desenhadas
marrom-escuras "Excursão para Ouro Preto - MG".
Meu filho foi pra lá estudar arte
em Janeiro. Um mês depois contou pra gente que estava namorando um garoto.
Desde então meu marido não fala mais com ele. Diz que respeita, mas não pode
aceitar. Já eu não acredito que possa haver respeito sem aceitação, mas temo
dizer para outras pessoas e acabar levando sermão do padre, então apenas
mantenho contato com meu filho, assim como a irmã dele.
Ontem ele nos contava sobre uma
obra de uma das igrejas de lá, que ele visitou junto com o namorado. Era bom
vê-lo falar tão livremente comigo, ele sempre foi tão na dele e agora está tão
feliz. A caçula também parecia mais feliz e leve desde que parou de vir. Eu não
consigo entender, isso me deixa meio enfurecida às vezes, e até com um pouco de
inveja.
Passei a vida me esforçando para
me adequar e não invejar, mas sempre foi meio inevitável. Olhando agora para
imagens, lembro-me das estátuas de Michelangelo e Bernini. Todas sempre
belíssimas, com corpos “esculturais” - no sentido mais figurado possível - e
uma sensualidade desnecessária. São sempre invejáveis. E nós somos obrigados a
olhar e ouvir que devemos nos contentar com o que Deus nos deu. Isso é
enfurecedor!
Elisa era belíssima e por isso eu
entendi meu marido me trair com ela. Se eu fosse homem, também me interessaria.
Eu jamais assumiria isso para outra pessoa, me sentir assim é errado, e
pecaminoso. Quantos pecados minha mente me trouxe.
-Preciso me redimir, meu Senhor!
- as estátuas destapadas desde a páscoa parecem me julgar - Esse local é santo.
O demônio está atentando meus pensamentos. Eu pequei…
O padre abre a porta da
sacristia, iluminando o ambiente. Convenço-o a atender a minha confissão.
Confessei pecados que nem eram meus. Meu coração corria e falhava em busca de
um compasso. Descansei à Pietá. Acendi uma vela a um santo desconhecido. Todos
me viraram a cara, mas eu saí em paz, por enquanto.
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