Atividade 1 repentina - Gabriel Coutinho
Caixa Preta
O que eu poderia falar dele que já não saibam…? Afinal, é como um livro aberto… não, isso é mentira. A verdade é que ele finge ser um livro aberto. Sua personalidade certamente não é segredo: uma timidez incorrigível, que só pode ser esquecida sob a paixão intensa de uma conversa interessante… mas, de novo, isso não importa. Isso todos já conhecem muito bem. Há algo, no entanto, que continua trancado a sete chaves. No meio desse livro aberto há um capítulo inteiro escrito com tinta da cor da página, de modo que torna impossível a leitura. De vez em quando ele deixa subir para a margem desse rio profundo alguns defeitos palatáveis: seu egoísmo, sua arrogância, sua raiva, sua capacidade brutal de ferir os outros de formas inimagináveis… ele faz isso só para desviar a atenção do verdadeiro mistério.
Desde que eu descobri a existência dessa caixa preta de segredos sombrios, comecei a instigá-lo a revelar aquilo a alguém. Não precisava ser para mim, mas pelo menos para uma pessoa com quem tenha profunda intimidade. Ao menos para um profissional, que poderia ajudá-lo a aceitar o que quer que havia escondido ali - ah, como eu era inocente.
Um dia consegui achar uma pequena brecha que meu amigo meticuloso deixou passar. Era um minúsculo furinho na carcaça da caixa preta, mas foi o suficiente para ter um vislumbre; e que visão maldita! Caí para trás, horrorizado, e fui lentamente engatinhando de costas; me afastando daquele segredo mórbido. Não, aquilo definitivamente não poderia nunca encontrar o lado de fora, e eu iria para sempre me certificar disso. A verdade era suja e implacável: ele é um homem desprezível, mas ninguém precisa saber o porquê.
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