Atividade 2 repentina - Eduardo Crespo

Hóspede

Apertava-me fortemente em seus braços; gostava do silêncio, mas não queria ficar sozinho. Envolvia minhas mãos ao redor de seus ombros, afagava metodicamente os seus cabelos e repetia palavras de consolo que nem eu sabia se eram realmente verdade. Tudo que eu sabia era que estar ali, diante dele, dava-me ânsia.

Suas visitas eram fora de hora, irregulares: às vezes, dava-lhe adeus para vê-lo depois de meses; outras vezes, mal ia embora e já estava de volta. E se hospedava, por horas ou dias, trazendo toda aquela melancolia excessivamente pesada em sua bagagem. E procurava, procurava por algo, pois sabia que uma simples mancha seria motivo suficiente para prolongar sua estadia por mais algum tempo. E quando encontrava, "O que é isso aqui? Você já tinha visto isso?”.

Entenda, não é falta de vontade. Eu, mais do que qualquer um, já tentei tranquilizá-lo, distrai-lo e até mesmo espancá-lo pra fora da minha Casa. Porém, ele sempre dá um jeito de voltar, com a bagagem ainda mais acumulada e bagunçada e suja.

Eu também não gosto dele. Não gosto da forma como ele aparece, não gosto de como ele me olha e muito menos dos assuntos sobre os quais ele conversa. Mas, coitado, às vezes ele acha que só tem a mim pra fazê-lo se sentir melhor. Então aqui estou eu, novamente, afagando-lhe os cabelos e dizendo, sem saber, que tudo ficará bem.

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