Atividade de Casa 1 - Luiza Pitangui
O vento gelado do fim do outono sacudiu seus ossos enquanto ela olhava a lápide suja, coberta de musgo e cercada de folhas secas que caíram das árvores durante a estação.
Passos que quebravam as folhas mortas no chão a fizeram parar de contemplar a quietude mórbida e observar discretamente o homem que entrava no pequeno cemitério atrás de uma capelinha.
Era um homem baixo, ombros largos mas nem tanto; usava botas militares, jeans surrados e um suéter bege de lã.
Seu estilo era caseiro, diferente do sofisticado dela, ela observou. Carregava buquês em seus braços com delicadeza, mesmo que, ela supôs, ele seja um homem de trabalho braçal. Deixou o amontoado de margaridas na frente de um túmulo, que parecia ser recente pela cor da lápide —estava com pouco musgo— e foi em direção a uma outra lápide onde deixou um arranjo de flores, provavelmente silvestres, bem arrumado e colorido antes de murmurar algo que foi levado pelo vento.
O homem voltou para onde deixou o buquê de bem-me-quer e, surpreendentemente, se sentou ao chão de frente para a placa de concreto e delicadamente, mesmo com as mãos grandes, ele amarrava os caules das pequeninas flores em uma coroa de flores, como quem trança o cabelo de uma criança, parecia que fazia isso com gosto; um sorriso saudoso surgiu nas feições do loiro quando ele segurou seu trabalho terminado, ela notou os lábios dele se movendo em uma conversa unilateral enquanto olhava para a lápide e deixava a coroa no topo da mesma antes de se levantar.
O olhar do homem o denunciou, um artista que perdera sua musa; com um sorriso nostálgico, a mulher leu seu rosto como um livro que já lera diversas vezes, afinal, ela sabia que seu olhar era o mesmo enquanto observava o jovem homem partir ouvindo as folhas secas se partirem em cada passo.
Excelente! O narrador perscruta com seu olhar o olhar do artista que perdeu sua inspiração.
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