Atividade Repentina 1 - Jorge Basilio Lirio

 Café extraforte

    Bem, não gosto de falar dos meus sentimentos. Aliás, não sou muito afeito a escrever em primeira pessoa. A não ser para assegurar de que me coloco sempre do outro lado da mesa. Imagino-me tomando um café comigo mesmo, mas não consigo pensar que a pessoa à minha frente seja alguém que, intimamente, eu conheça. Prefiro imaginar que estou diante de outros eus. A perspectiva de sustentar os olhos do mesmo eu todas as manhãs no espelho do banheiro, já ranhurado pelo tempo, ou o reflexo nesse pequeno lago negro de café extraforte, por vezes me apavora. 

    Prefiro acreditar ser descendente daqueles escribas antigos, sem os quais a ordem de seus impérios ruiria. Não os imagino fazendo este pequeno exercício de autoconsciência, ou registrando um monólogo interior em papiro. Gosto de pensar no agitado ano de 1968 e em como Roland Barthes conclamava a morte do autor. Ou em nossa Clarice, a nordestina ucraniana com sobrenome latino que, enquanto não estivesse registrando epifanias no papel, se dizia morta. Neste sábado cinzento, não me sinto nada muito além disso. Me sinto pesado, e neste caso, sem as devidas metáforas. Ou melhor, jogado no sofá soçobrado por uma coberta e pelos de gato, igualmente cinzas, não me sinto mais do que um edifício brutalista há bastante esquecido e sob o mato alto, nos confins de uma ex-república soviética. Ou em Brasília. Como em São Paulo, ouvi dizer que lá tem muitos.

    É certo que não gosto de me presentear com adjetivos, mas com livros. Principalmente aqueles que falam da vida dos outros. Sei que é ingênuo pensar assim. Ler os outros, é sobretudo tentar enxergar a si mesmo. Uma tal de condição humana, dizem. Há uma frase creditada a Borges, em que o escritor argentino, ao conceder uma entrevista, supostamente menciona o fato de um autor escrever sempre o mesmo livro, a todo momento, sob outras perspectivas, sob outros prismas. Quem sabe? 

    Por enquanto, nesta manhã, asseguro-me apenas de que a minha aspiração — não confundir com inspiração, não seja outra tal qual o sabor do meu café todos os dias: forte e contemplativo. E sem açúcar, por favor.

Comentários

  1. Jorge, já eu gosto de falar dos meus sentimentos, de mim. Timidamente, mas gosto. Já o fiz com frequência. Hoje, não mais. Apenas para poucos, bem poucos. Na verdade, acho que só para mim mesma rsrs No "espelho do banheiro", no "lago negro de café extraforte", "sem açucar, por favor" e nos dias cinzentos. Viajei nas tuas palavras cheias de sentimentos, me identifiquei. Obrigada pela partilha interior. Estou aqui do outro lado, não sou um dos teus eus rsrs mas me fez muito bem te ler.

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  2. Jorge, a sua escrita é muito boa. Se na escrita repentina você já produziu tudo isso, imagino a produção em que você tenha mais tempo de elaboração. Aguardemos outros textos seus.

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  3. Jorge você já é escritor nato meu amigo. Gente estou até envergonhada da minha escrita diante de tanta riqueza e formas das escritas dos colegas aqui. Parabéns.

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