Atividade Repentina 2 - Jorge Basilio Lirio
Simbiose
Ele conhece meu relógio biológico. Inclusive, suspeito que saiba o que andei bebendo em noites anteriores. Aos sábados matinais, é nítido que ele vem cheirar minha barba a fim de se certificar de que não me embrenhei com outros bichanos, ou se ainda possuo um resquício alcoólico que não o de cerveja. Sim, ele também já reconhece o cheiro da minha cerveja. Às vezes, ao final da tarde, nos sentamos juntos, um copo na mão, os olhos semicerrados, piscando lentamente, ora de um vazio existencial — ou no caso dele, de um sentimento ainda inominável, caro à espécie, uma mistura de tédio e prazer. Pensando bem, deve ser bom mesmo se recostar na barriga estufada do seu humano.
Como eu, ele também parece apreciar o aroma adocicado da bebida. Mas, nem sempre acerta o que bebi. Entre essas e outras, descobri que ele tem horror a vinho tinto. Ocorre que Aristeu é um pouco corpulento para a sua idade. Uma de suas táticas infalíveis, logo pela manhã — e me conhecendo muito bem, sabendo que detesto ser acordado, é subir de um supetão com as quatro patas nas minhas costas, como um tanque de guerra já conclamando por uma terra arrasada.
Nesta última noite porém, tentei ser mais esperto, e o surpreendi. Deixei uma taça de vinho ao lado da cama, de modo que, mesmo tendo usufruído das minhas brejas até às 2h da manhã, ao chegar à casa, passei algumas gotinhas pela barba, como quem usa loção pós-barba, ou água de colônia. Sou o tipo de pessoa que se perfuma para dormir, afinal, nunca se sabe. Mas qual foi a minha surpresa ao despertar com o animal não em minhas costas ou barriga, como de costume, mas prostrado, as patas brancas cruzadas e sobre a minha cabeça! Achei algo de Lewis Carroll e tóxico. Não que as histórias de Alice fossem tóxicas, mas vocês sabem, saem coelhos e gatos de todo lugar.
A taça de vinho ainda estava lá, sobre o móvel de cabeceira, e o bicho agora me fitava, olho no olho, como quem dissesse: "eu sei o que você fez na noite passada". Como se este quisesse me inebriar, não mais de vinho ou de cerveja, mas com seu odor felino característico. Suponho que, achando já ser eu um deles, lhe devia alguma lealdade.
O erro foi meu, admito. Meu cabelo era a única parte do meu corpo que não cheirava a álcool, mas à cama quentinha e sonhos. É por essas e outras, que já desisti de negar a simbiose entre homem e gato.
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