Atividade 2 - Casa
Certo dia, por volta das 23 horas, eu ouvi um celular tocando na calçada da minha casa. Um pessoa atendeu e disse:
- Alô! Sim, é o João - disse o homem que passava perto da minha casa. - Oi, Sandra. - continuou de forma séria - Não estou em casa, mas pode falar.
A voz do outro lado fez o homem fechar os olhos, suspirar, depois abri-los e olhar para cima, como se segurasse as lágrimas. Fiquei observando enquanto aguardava o Uber.
- Você tem certeza? - disse o João.
Não consegui ouvir o que a tal da Sandra respondeu, mas João ficou em silêncio por aproximadamente 10 segundos, devia estar pensando em uma resposta.
- Certo. - respondeu e suspirou novamente, de maneira calma e conformada - Vou ligar para a funerária e agir as coisas.
Uma pequena pausa se sucedeu.
- Sim, ele tinha plano - continuou o homem de baixa estatura, magro, calvo, de pele alva e meia idade.
Dessa vez, com o tom de voz alterado, pronunciou: - Me arrepender de quê? Ele que errou! Diferente dele, eu sou presente na vida do meu filho.
Meu Uber chegou. Entrei no carro e, enquanto ele se afastava, olhei para trás e vi que João permanecia ao telefone, mas começou a gesticular, pelo visto ficou nervoso com algo que foi dito pela pessoa do outro lado da linha, provavelmente sobre ter ou não algum arrependimento.
Quem será Sandra? Que notícia ela deu e como a conversa se desenrolou para o João ficar daquele jeito? Aparentemente alguém morreu. Talvez o pai do João e talvez eles não fossem próximos. Lembrei-me do dia que recebi uma ligação do meu irmão durante o meu horário de almoço informando que o meu pai havia falecido. Lembrei-me de tudo que eu senti naquele momento, de correr para casa em prantos e de não querer falar com ninguém. Meu pai também não foi presente, mas isso não ameniza a dor. Passei o trajeto pensando em João, imaginando como ele estava se sentindo e refletindo sobre os meus arrependimentos.
Quando o Uber parou em frente ao bar que eu iria encontrar meus amigos, decidi não entrar. Pedi para o motorista me levar de volta para casa e fui, na esperança de encontrar o João. Mandei uma mensagem no grupo do WhatsApp informando que tive um imprevisto e não iria encontra-los. Eu poderia ver os meus amigos em um outro momento. Por alguma razão, falar com aquele estranho em luto parecia mais urgente.
Chegamos cerca de 10 minutos depois e o homem não estava mais lá. Dessa vez fui eu quem suspirei. Entrei em casa, parei em frente ao meu quadro de fotos e fiquei observando o meu pai. Um homem de baixa estatura, magro, calvo, de pele alva e que se foi na meia idade.
- Leticia Barreto
Letícia sua escrita e sensibilidade me arrebatam moça. Parabéns.
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