atividade de casa - Luiza Pitangui
O Doutor
Dias chuvosos eram uma benção é uma maldição; ali naquele beco, o sangue manchava o chão e era diluído pela água da chuva que, limpava o corpo de toda evidência do crime.
A rua sem saída ficava entre um armazém e um prédio desativado, sem testemunhas; era um crime perfeito.
Ricardo fora o primeiro a chegar na cena do crime, os olhos inteligentes ainda presos ao cenário sujo e deplorável que evidenciava uma parcela da perversidade humana. Uma jovem senhora; loira e branca. O vestido branco de verão estava ensopado e manchado do próprio sangue; ela estava olhando para cima, os olhos castanhos sem o brilho da vida estavam olhando para o céu nublado.
Com dedos finos cobertos de couro preto, o detetive pegou um cigarro e o acendeu, mesmo com a consciência de que, com a chuva, ele logo apagaria. A chuva logo chegaria ao seu epílogo assim como a mulher que, na casa de seus quarenta, teve um trágico e precoce encontro com a morte.
Duas tragadas, duas longas tragadas; Ricardo ainda observava a vítima.
Em breve os outros chegariam, o homem olhou para o relógio de ponteiro e decidiu apagar o cigarro; tirando o chapéu, ele se agachou ainda olhando a fria mulher sem se preocupar com o sobretudo escuro arrastando no asfalto banhado em sangue.
—Merda de chuva!—Ele ouviu, olhou para seu outro colega detetive e se levantou ajeitando chapéu na cabeça—Chegou cedo novamente? Você sempre é muito pontual Ricardo, me pergunto se isso lhe dá aumento no salário, porque se sim então vou passar a fazer isso diariamente!
O velho se aproximou e cruzou os braços.
—Sabe a causa da morte?
—Corte na garganta, mesmo de semana retrasada— disse com a voz fria, tirando os olhos do detetive mais velho—Mais um caso sem pistas, sem sinal de luta.
—Precisamos dar o nome para o infeliz, sete assassinatos sem conclusão…impossível que sejam pessoas diferentes.
—O que você sugere Eduardo? — Ricardo perguntou acendendo
outro cigarro, a chuva parou e não existia mais o risco de apagar o mesmo.
Com um último olhar para a moça, Ricardo saiu do beco; o
sobretudo molhado pesava sobre os ombros magros do homem, mas ele não se
importava. O detetive apagou o cigarro na parede de tijolos do armazém engolindo um sorriso, ele colocou a mão no bolso e segurou as chaves, o homem odiava
quando elas batiam no bisturi sujo que usava toda vez que saia da cena do
crime.
Luiza que legal seu texto e muito criativoooo. Me senti assistindo Criminal Minds. Parabéns.
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