Atividade Repentina 3 - Eduardo Crespo
Céu Fechado, Loja Cinzenta
O
fogo já consumia tudo. As pelúcias estavam destroçadas; seus corpos se contorciam
em cinzas e chamas, como seres macabros, distorcidos. As duas crianças, deitadas
lado a lado, já não respiravam; haviam inalado fumaça demais. Uma garotinha de
vestido branco e um menino de macacão azul. E no entanto, quem olhasse a
serenidade em seus rostos acharia estarem dormindo, sonhando o que quer que fosse.
Um passeio no campo... talvez uma brincadeira de pique. E as cinzas aos poucos
salpicavam suas roupas, tornando-as escuras e sujas, manchadas, indistintas de todo esse
cenário de destruição... Mas estava tudo bem. Como pássaros que levantam voo
após um dia escuro e tempestuoso, elas já haviam partido para longe.
Mas
aqui estava o caixa eletrônico, ainda na bancada, apesar de tudo. Olhava-o com
um sorriso irônico, porque algo em mim — não sei dizer o quê — ainda me
instigava a levantar e tentar salvar algum dinheiro que pudesse. Dinheiro?...
Que dinheiro? Deixaria que tudo fosse queimado se eu só pudesse chegar em casa,
tomar um banho e arrancar toda essa poeira do meu corpo e da minha memória...
Mas eu
não vou pra casa hoje.
As
chamas lentamente se aproximam, e eu inspiro profundamente.
Inspiro toda a
fumaça,
toda a sujeira,
tudo.
Porque também eu quero ir pra qualquer lugar,
desde que bem longe daqui.
Ligação de Emergência
— O
quê?! Agora na 25 de Março?!
A
notícia chegava por ligação. O incêndio no shopping havia se iniciado há pouco
tempo, mas se expandia supreendentemente rápido. Luiz, soldado do corpo de
bombeiros, mal conseguia segurar o celular na mão. Tremia muito.
— É
claro que sim! Tô indo pra aí agora mesmo! — Desligou.
Corria
uma mão pelo guarda-roupas enquanto digitava um número com a outra. Xingou nas
três vezes em que apertou o botão errado. O coração martelava forte.
O
celular chamava... chamava... chamava... caía na caixa postal.
Repetiu.
Chamava...
chamava... chamava... caixa postal.
— E
agora?... E agora?! Meu Deus! Imagina a situação, o caos! Imagina se desmorona
tudo! Calma! Calma porque não tem muito tempo que começou. Ainda tem como. Ainda
dá pra conseguir chegar lá rápido... Meu Deus! Onde botei essa merda de uniforme?!
Finalmente
encontrou o uniforme. Atirava a roupa do corpo para a cama, para o chão, para
qualquer lugar onde caísse. Vestia a calça, se embolava tentando abotoar a
jaqueta, calçava a bota da maneira que dava. Não tirava os olhos do aparelho.
Chegava ao ponto de detestar o som da ligação tocando e odiava mais ainda ouvir a voz dizendo “sua chamada está sendo encaminhada--”. Desligava antes. Repetia.
Correu
para a cozinha. Celular em mãos, olhos vidrados na tela. Tateou o porta-chaves.
Nada.
— Ah,
agora pronto! Cadê a porra da chave?!
Revirava
os papéis da mesa, os travesseiros do sofá, os porta-retratos da estante. Nada.
Ajoelhou-se e olhou embaixo de cada um: mesa; sofá; estante. Nada. O celular
chamava... caixa postal. Repetia. Voltou para o quarto. Jogou os lençóis no
chão, enfiou a mão embaixo do colchão, olhou embaixo da cama, dentro do
guarda-roupas, atrás do guarda-roupas, na bolsa, no cesto de lixo, no parapeito
da janela. Nada. O celular chamava... caixa postal. Repetia.
—
Não vai dar tempo! Não vai dar tempo!
O
suor respingava. O sangue corria furioso. O rosto estava para explodir. Por uma
fração de segundos, tinha decidido ir para o local só com as forças dos pés.
Olhava da janela do apartamento como se pudesse ver o shopping de lá: 12
quilômetros de distância... Sequer pensou em pedir um uber ou uma carona de um
amigo. Não. O celular estava ocupado demais com outra
coisa muito mais importante.
Queria
chorar, gritar, socar o celular na parede; quebrar tudo. Até que sentiu em sua
mão uma vibração diferente. Um movimento que não era seu, não era do seu nervosismo. Seria
ela? Não soube ainda dizer, não quis olhar quem era, só apertou o botão verde e
segurou o aparelho contra o ouvido.
—
Camila? Camila, é você?
—
Oi, meu bem. Aconteceu algo? Eu acabei de ver que tinha umas quinze chamadas perdidas,
tá tudo bem?
—
Onde que você tá?! Você tá na 25 de Março?!
Silêncio...
—
Camilla?!
—
Por que, meu bem? O que tá acontecendo?
— O
incêndio, o incêndio! Onde você tá?!
— Incêndio?
Que incêndio? Eu tô aqui em casa, ainda não fui pra lá. A Bibi tá aqui também.
Fala oi pro papai, filha (“oi, papai!”). Que horas você volta do serviço?
E
então a tremedeira começava a passar, a respiração desacelerava, o sangue se
acalmava e o rosto voltava à cor normal. Despediu-se da esposa, da filha, mandou
que elas ficassem em casa e pediu para que elas nem pensassem em ir para lá, era perigoso demais. Avisou-as que talvez chegasse tarde. Desligou a
ligação, botou o celular no bolso.
Voltou
a procurar pela chave. Não mais com o mesmo ímpeto de antes, mas sim com uma
aparente tranquilidade, e até mesmo indiferença. Vagava os olhos pelo quarto,
pela sala, pela cozinha... Tirava alguns segundos para refletir sobre onde a
teria deixado. Alguns minutos depois, encontrou-a dentro do banheiro.
“Deve ter caído do bolso”, pensou.
Já estava pronto para ir. No entanto, percebeu que fedia. Um incômodo cheiro debaixo das axilas que, no momento, pareceu-lhe insuportável. Despiu-se. Pegou uma toalha e ligou o chuveiro.
Cerca de meia hora depois, saía do apartamento.
Adorei os dois textos, muito criativos. Parabéns!
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