Escrita repentina [25/06] Lucas Guilherme
Ele adentrava o estreito corredor sempre que a sirene
tocava. O som agudo da sirene ainda ecoava em meus ouvidos e logo ele aparecia.
Franzino, com cabelos encaracolados e o mesmo tênis de sempre. As primeiras
vezes que o vi era intermediado pelos fins de semana, como nas locadoras,
aparecia nas sextas e retornava na segunda para entregar a obra escolhida. Não
passava ali muito tempo, vinha ao fim dos recreios como se quisesse ampliar os
intervalos. Depois de um tempo passei a encontrá-lo diariamente: corpo
franzino, rosto assustado, olhos que pareciam pedir que lhe deixasse ficar. Já
não mais se escondia entre as páginas do livro, escondia-se na penumbra da
biblioteca no ponto cego do meu olhar que lhe mirava da mesa distante. A frequência
diária também foi progredindo e noto que seus cotovelos ralados vão
cicatrizando com o tempo. Noto seus olhos assustados e me pergunto o que lhe
causara aquelas cicatrizes. De que queda seria possível lhe marcar os dois
cotovelos? Decerto, uma queda de bicicleta lhe levaria ao menos a proteger um
dos braços. Ligo os pontos, a frequência aumentada na biblioteca, os cotovelos
ralados, o olhar assustado. Decerto foi assombrado, interrompido por alguém,
paralisado pelos meninos das séries avançadas. Não lhe parecia ter levado
socos, apanhado, penso mais um pouco, e assim, ao chão, empurrado. Um empurrão.
É esse! – caçoavam. Os cotovelos sem muita possibilidade de se esconderem, mas
ali, no breu daquele ínfima biblioteca, o menino encontrava seu abrigo na
literatura.
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