Atividade repentina 4 - Kayo Oliveira

 Masmorra em Estocolmo

A sala estava fria e escura. O céu, sobre o teto de vidro, cintilava em estrelas dispersas. A lua nova não iluminava o cômodo e Paulo olhava a procura dela, enquanto se escondia de baixo da cama. Viu os pássaros migrarem sem saber se iam para o norte ou para o sul, já fazia tempo que a única visão externa era o céu sobre si e a bandeja com comida que era renovada todo dia enquanto ele dormia.

Ver os pássaros passarem o deixou enjoado. Virou-se para baixo, mas a ânsia não resultava em nada além de dor e um grito oco e abafado. Em uma tentativa de cessar a dor, pressionou fortemente onde ele achava ser o estômago e o grito fraco rasgou o ambiente.

Algo estava mais errado que nunca quando ele acordou naquela manhã. Às vezes o cômodo cheirava a ferro e sangue e o odor sempre vinha acompanhado de acontecimentos ruins. Naquela manhã, ele sentiu um cheiro exterior ao local em que se encontrava. Era algo como jasmim, incenso e algum doce – talvez goma de mascar, ou marshmallow. - Lembrou a infância. Os primos que já não via há anos. Seja por alucinação ou a mais pura e cega realidade, uma risada estridente de uma garotinha veio da porta.

Aquele foi, provavelmente, o dia mais assustador que ele já passou preso ali. Todos os outros eram ruins, mas a torturante sensação de nunca ter passado pela situação que passava era ainda mais angustiante que qualquer odor ruim. Ele fechou os olhos e sentiu o corpo amolecer como gelatina, depois do que pareceram anos de guarda alta e corpo rígido como as paredes que o cercavam.

De olhos fechados, sentiu a luz passar pelas portas e atingir seu rosto. Seus olhos não se abriam apesar dos esforços. O tempo acabara. A senhora do destino dele decidiu por um fim na dor e no sangue, com mais dor e mais sangue. Nele havia uma estranha – e talvez masoquista -  sensação de alívio.

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