Atividade de casa 4 - Brenno Martins

Quando entrei fui para o banco mais próximo da porta. Estava atrasada e não queria chamar atenção, então sentei sozinha no canto, coloquei minha bolsa ao meu lado e me deixei levar pela beleza do local. A igreja é antiga, sempre que vou ao local me encanto com os vitrais como se fosse a primeira vez que os vejo. O lugar estava mais cheio que o normal, um grupo de mulheres faziam suas preces alguns bancos à frente, e enquanto a noite caía, comecei a pensar sobre meu dia. Agradeci pelo dia que tive, pela promoção que meu marido conseguiu no trabalho, e pela aprovação do meu filho na faculdade que ele tanto sonhou. Era algo comum, todos os dias eu agradecia, me levantava e ia embora, mas nesse dia algo me prendia ali. Pensamentos que surgiam após outros pensamentos, preocupações que não haviam marcado minha mente, ainda. Meu filho vai se mudar para outra cidade, meu marido vai trabalhar mais horas, e se eu ficar sozinha? - conversava comigo mesma.

Senti lágrimas escorrendo do meu rosto. Pensei sobre o que meu filho havia me dito semanas atrás sobre o rapaz que ele estava amando, e meu peito se afundou em conflito. Algumas brigas que tive com meu marido também vieram à tona, junto com a ideia de que ele poderia me largar para viver com a secretária que trabalhava com ele. Fechei os olhos e encostei minha cabeça na parede pedindo ajuda aos céus. Uma moça se aproximou, chamando meu nome. “Celeste”, ela disse. Abri meus olhos e vi uma bela jovem, com um sorriso tão lindo que me fez demorar perceber que não havia mais ninguém ali. Ela me olhava, e eu apenas olhava de volta.

- Sabe, vocês sempre fazem isso, ela sorriu - provavelmente era comum pessoas adormecendo ali. 

- Me desculpe, eu caí no sono - disse pegando a minha bolsa. 

- Não. Me refiro a pensar demais, criar coisas que não estão no seu caminho. Me diga, Celeste, seu filho parece triste para você? Parece com alguém que precisa de alguma mudança?


Não respondi, apenas firmei o olhar no dela.


- E seu marido, que esteve ao seu lado todos esses anos, que sempre te traz flores quando se desentendem e sempre se preocupa com a relação de vocês, parece com alguém que te trocaria?

- Não, não parece.

- Pois então, Celeste. Por que vem aqui chorar em angústia, quando deveria chorar de felicidade? Você não deveria ter medo de mudanças - ela colocou a mão em meu ombro.


Senti algo invadir meu ser. Senti que as coisas faziam mais sentido. Fui pegar minha bolsa, queria o número daquela jovem, queria uma tarde de conversa num café, mas meu celular não estava ali. Nem a menina, que desapareceu assim que tirei os olhos de minha bolsa. Assustada me coloquei de pé, o local estava escuro, vazio. Meu relógio me dizia que era por volta das duas da manhã e percebi que havia dormido algumas horas ali. Me levantei e andei pela igreja, passei pelo quadro de anúncios que dizia “Deus se apresenta de várias maneiras, mas nunca te deixa só”. Com sorte a porta dos fundos, que o pessoal da limpeza usava, estava aberta. Entrei no meu carro e fui para casa, meu marido e meu filho estavam completamente atordoados e uma chuva de perguntas me cercou, mas tudo que consegui fazer foi abraçá-los. Depois de um tempo, expliquei que meu celular estava no trabalho, e que eu adormeci na igreja. Naquela noite eu dormi em paz, sabia que mesmo que estivesse presa em algum lugar, jamais estaria sozinha.


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