Atividade de casa 4 - Emar Vigneron
Fogo
Chego
à Igreja, como faço todos os dias após o trabalho. Um hábito antigo que,
provavelmente, adquiri quando estudava no colégio de freiras. Não posso mentir,
dizendo ser uma pessoa católica quando, na verdade, tenho uma fé muito
espiritualista. Mas cultivei o hábito de entrar na Catedral, às 18 horas, diariamente,
ao sair do trabalho, para agradecer por mais um dia de vida. É uma coisa
de que preciso, a ponto de me sentir culpada se não cumprir o ritual.
Cheguei.
18 horas em ponto. Graças a Deus!
Como
sempre, a Igreja está vazia neste momento. Ajoelho-me e começo a rezar:
Obrigada, meu Pai, por mais um dia ... que sono, como estou cansada! Também,
não consegui dormir à noite, já que Marcelinho, meu filho mais novo, estava com
febre. ... Perdoe-me, Pai, mas estou
sem concentração. Obrigada, Pai, por mais um dia ... vou me sentar um pouco,
até meus joelhos doem.
Meus
olhos não conseguem se manter abertos. Nunca me senti assim, exceto quando
criança, nas festas familiares.
Jesus
do céu, que escuridão! O que houve? Onde estou? Oh, agora me recordo, estou na
Catedral. Será que faltou luz? No inverno, sempre escurece cedo. Nossa! As
portas estão trancadas, a Igreja foi fechada. Devo ter dormido muito. A ideia
era somente um cochilo. Só vejo a luz das velas em uma das pequenas capelas da
Catedral.
Tudo
bem, vou ligar para o meu marido e ele dará um jeito. Não acho o celular na
bolsa. Nossa, acho que esqueci em casa. Não me recordo de tê-lo usado durante o
dia. E agora?
Não
há muito o que fazer. Se eu bater na porta da igreja, as pessoas, passando ao
lado de fora, vão achar que é assombração. É assustador ficar em uma igreja
escura, com os quadros da Via Crucis de
Jesus. Desde criança, eu olhava aquilo com pavor. Melhor nem pensar nisso.
Por
que não rezei e fui para minha casa? Começo a rezar. Rezei pelo mundo todo, mas
olho no relógio e as horas parecem não passar. Tenho que me controlar. Se não
há saída no momento, o melhor é não ter pensamentos negativos, medos e, sim,
ter consciência de que estou em um lugar sagrado e cheio de paz.
Ainda
bem que trouxe minha caixinha de medicamentos. Tomo uns dois calmantes e durmo.
Seria ridículo me acharem dormindo aqui, como uma louca. Melhor esperar. Que
susto! O silêncio é tão sinistro que dá arrepios. E que silêncio!
Estou
ficando doida, ou vi algo se mexer? Ai, meu Deus, estou apavorada. Que silêncio
apavorante dos infernos! Não, Luiza, tira isso da cabeça.
Vejo um clarão e deduzo que já começa
a raiar o dia. Nada, o relógio ainda mostra que não passa de 23h45. Jesus,
daqui a pouco é meia-noite. Que medo! Como queria ter um lençol para me cobrir.
Sinto muito calor de repente. Será que a temperatura subiu ou é porque estou
tensa? Que clarão forte é este? Um ser vestindo vermelho surge em meio ao fogo.
Meu Deus, me proteja! É o diabo mesmo, que medo! Ele se aproxima de mim, sinto
o calor aumentar, entro em desespero, começo a gritar. Grito mais e mais alto.
Sinto uma mão em meu ombro: Não, não
me toque. Sai, Satanás! Socorro!
Ouço uma voz doce e suave. É o pároco
da Igreja. Sinto o sol bater em meu rosto. A manhã já chegara. Eu dormi a noite
inteira.
Obrigada, meu doce senhor! Ainda bem
que me chamaste. Nunca me imaginei dormindo em uma Igreja. Pergunto se tem um
celular, ligo para o meu marido, que passara a noite em claro me procurando em hospitais,
IML, delegacia. Agradeço. Ele me traz uma xícara de café e me conta que, há
anos atrás, uma senhora havia passado pela mesma situação que eu, exceto pelo
fato de que, no caso dela, teve uma queda de glicose e desmaiou. Sorrimos um
para o outro. Aí o pároco me disse que, diferente de mim, que havia dormido, a
tal senhora alegava ter visto o fogo e um ser vestido de vermelho que ela
dissera ser o diabo. Ele ria daquela história, dizendo que, certamente, a tal
senhora deve ter sonhado. Evitando parecer ridícula, dei um sorriso amarelo e
omiti meu "sonho".
Meu marido e as crianças chegaram,
agradeceram ao pároco, e, curiosos, queriam saber como me meti naquela
situação. Contei-lhes do sono, devido ao fato de ter que cuidar do Marcelinho.
Meu marido me olhou nos olhos e disse que Marcelinho não adoeceu. Sinto a
cabeça girar. O que aconteceu, afinal? Será que tudo foi um sonho? Mas o mesmo
sonho da outra senhora que, como eu, dormira na Igreja?
Já estávamos saindo, me volto para o
pároco e pergunto: O senhor conhecia a tal senhora, da qual me falou? Ao que
respondeu: Sim, era frequentadora de nossa Igreja.
- Ela ainda está viva?
- Oh, não, se matou 13 dias depois.
Neste momento, ela percebeu que os
olhos do pároco refletiam uma cor avermelhada.
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