Atividade de casa 4 - Giselle de Paula
Tenho o costume de sair do trabalho e ir à igreja todos os dias às 18h. Venho aqui agradecer a Deus pelos meus filhos, meu marido e por minha vida. Porém, hoje aconteceu algo. Adormeci no banco e, ao acordar, vejo que não há mais ninguém dentro do templo. Tento abrir a porta, está trancada. Reviro a bolsa procurando meu celular, mas ele não está lá. E agora?
Se eu estou sentada nesse banco de madeira dessa igreja, nesse exato dia e nesse exato momento, deve ter um motivo. Será que Deus me colocou presa aqui para refletir sobre minha vida? Mas sobre o que devo refletir? Minha vida é perfeita. Tenho meus filhos, todos formados, com famílias formadas, não me dão trabalho nenhum. Afastaram-se um pouco, tudo bem, é verdade. Mas são boas pessoas. Meu marido é um anjo. Apesar de nunca tê-lo amado o quanto eu gostaria, ele sempre foi considerado um bom partido. Trata-me bem, apesar de não ser muito bom de cama. Mas o que é isso frente a outras coisas, né? O que é a paixão frente ao que construímos juntos?
Estou pensando em excesso. Grito para que alguém me escute e abra a porta. Para que um padre, uma freira, ou sabe-se lá quem, possa vir abrir essa porta. Que vontade de quebrar as janelas, mas são tão lindas, obras barrocas. Estou ficando louca. Penso muito. Penso na minha família, não quero pensar. Não quero ter a realização de que não amo meu marido. A realização vem, o sentimento de pena vem junto. Não quero ter pena. Ninguém é digno de pena. Começo a chorar, meus olhos doem, devem estar vermelhos. Adormeço novamente.
Acordo e ainda é noite. Será que meu marido está preocupado? Será que mandou alguém vir atrás de mim? Será que eu vou conseguir sair daqui? Eu quero ir embora. Minha barriga ronca, estou com fome. Que horas são? Não tenho relógio. Sinto falta da minha filha e da minha netinha Maria Flor. Lindo nome, eu que sugeri. Penso nessas famílias construídas sem mim. Meus filhos se casaram, construíram suas famílias e me deixaram sozinha. Sozinha, sozinha. Estou sozinha nessa igreja, estou sozinha em casa, estou sozinha. Não quero pensar mais. Choro, grito para que alguém ouça minha súplica. Rezo a Deus. Deus, se queria que eu sofresse tanto com esses pensamentos, por que me mandou para essa igreja? Deus, será que você gosta de nos ver sofrer? É por isso que está me dando esse castigo? Deus, não quero pensar. Adormeço.
Desperto com o padre tocando meu ombro. Você dormiu aqui, pergunta? Dormi sim, respondo. Você quer que ligue para alguém? Está precisando de alguma coisa? Obrigada padre, estou bem, mas preciso ir para casa, digo. Pego a minha bolsa e vou andando em direção à minha casa. Tomo um banho e me arrumo para um outro dia de trabalho. Meu marido parece não perceber que eu não dormi em casa. Não me pergunta nada. Ninguém procurou por mim. Saio de casa para pegar a condução. Mais um dia normal.
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