Atividade de casa 5 - Emar Vigneron
A Festa
Tia
Irene estava comemorando seus 60 anos. Toda a família se reuniria para a
celebração. A minha mãe estava preocupada, pois há anos não os víamos. Eu sequer me lembrava de alguns deles.
Havia uma tensão no ar em relação a como tudo transcorreria.
Nos
arrumamos e seguimos para a casa da aniversariante. No meio do caminho, ouvi
meus pais conversando:
-
Será que ela mudou?
-
A vida muda muito as pessoas. Não a julguemos antes de vê-la.
-
Vamos esperar.
Ao
chegarmos à casa da tia, muitos carros estacionados. Desço correndo ao ouvir um
barulho. Curioso, andei em volta da casa. Miau,
miau. Meu Deus, é um gatinho. Se o achar, já estarei com a noite salva.
Papai me gritou para entrarmos.
Frustrado,
tomei um susto com o palácio que se apresentou à minha frente. Não sabia que
eles eram tão ricos.
Entramos,
todos estavam na sala e nos receberam muito bem. Devia ter umas 10 pessoas, mas
eu não conhecia todas.
Vivíamos
em uma cidade muito pequena, a 3 horas dali. Meus pais decidiram morar no
interior, visando maior qualidade de vida, mais segurança e paz. Devido a isso,
quase nunca víamos os parentes. Estes, quase nunca. Eram parentes do meu pai,
com os quais ele mantinha pouquíssimo contato.
Sejam bem-vindos! Nossa, como as
crianças cresceram! O Pedrinho, tão magrelinho, hoje parece uma girafa. Que
rapagão!
E a gentileza continuou.
Para um rapaz de 17 anos, aquela casa
era o inferno. Todos chatos e superficiais, empoados demais, um bando de
pavões.
De repente, ouço um barulho que
parecia ser a casa caindo. Corri até à sala e tomei um susto. Tia Irene, com um
revólver nas mãos dizia:
- Era da vontade de Deus. Um demônio
não deve jamais andar pela Terra.
Aí o carnaval começou mesmo: mamãe
chorando, minha irmã apavorada, papai perdido. Ninguém entendeu porque a tia
matara o próprio filho. Que retardada!
Não sei sequer o motivo, mas alguma o
moleque aprontou. Ou ela era Gardenal.
Enfim, a polícia chegou e todos
foram, um a um, levados para depor.
Na minha frente estava uma linda
moça, olhos de mel, lábios de morango, pele de porcelana. Muito linda mesmo!
Após horas daquele tédio, Tia Irene
saiu algemada pela polícia. Atrás dela, chorando muito, estava aquela linda
bonequinha que tanto me encantou. Não entendi nada. Entrei na casa, mas estavam
se despedindo.
Na volta para casa, o silêncio
imperava.
Anos depois, finalmente descobri o
que houve naquele fatídico dia. A minha tia Irene matou seu próprio filho
porque ele ameaçou contar, na frente de todos, que a tão virtuosa mãe tinha uma
relação íntima com aquela linda boneca de porcelana.
Eram tempos diferentes, cheios de
preconceitos e falsos pudores. Por isso, me esconderam durante anos o que havia
ocorrido.
A tia Irene, após sair da prisão, foi
morar com a boneca de porcelana, ainda muito bonita. Hoje sei o nome dela:
Cecília. Mas se tornou uma mulher mais sadia na forma de pensar. Segundo soube,
ela disse, ao sair da prisão:
- Por que não pensava sem tanto
preconceitos e medos tolos? Hoje, estaríamos todos juntos. Meu filho, a família
dele e nós duas. Mas, infelizmente, isso não é possível.
Ao chegarem a casa, Irene subiu, foi
ao seu quarto, tomou um banho, se arrumou e desceu. Chamou a Cecília e disparou
2 tiros à queima-roupa. Apontou a arma para si e apertou o gatilho, tendo como
último lampejo o sorriso do filho.
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