Fluxo de Consciência No meio de um oceano vazio e sôfrego regado por um azul brilhante, com a pele ardendo e a garganta seca, as ideias surgem como pingos de chuva espaçados. Pouco a pouco vou me saciando dessas gotinhas e recuperando as forças. Mas a alegria dura pouco, pois a ansiedade da saciação clama por mais água. O azul vira cinza e as pequenas gotas se tornam em uma verdadeira tempestade de pensamentos, revirando violentamente o pequeno barco da minha sanidade. Por que será que insisto em me entregar irresponsavelmente àquelas pequenas gotas de água?
Introspecção Era uma rua movimentada, com muitas lojas e pessoas andando. As lojas eram atrativas, com muitas coisas bonitas que poderiam chamar sua atenção, mas Marcos nada via. Alguns passavam, cumprimentavam-no. Ele não percebia. O barulho do mar, os bares cheios, muitos em roupas de banho, mas nada o distraía do seu pensamento fixo. Árvores frondosas, bebês nos carrinhos, com suas mães ou babás. Quanta natureza, quanta beleza, o céu azul, um sol brilhante! Risos, conversas. Os prédios eram altos, muitos carros passando. Ele nada via. A única coisa que ocupava sua mente eram as luvas ensanguentadas enfiadas em seus bolsos. Sim, ele matara alguém, num ímpeto de raiva. Não suportou saber que seu sócio o roubara e que, por isso, estava fadado a não ter sequer algo para comer ou onde morar. O sangue não esfriara e ele ainda possuía um imenso ódio dentro de si, enquando as ondas quebravam na praia e risos ressoavam no ar.
Bocal Há um labirinto em cada um de nós, o meu é assim, meio paralítico, meio ranhoso; quando ingresso, o portal se desfaz nas bolhas que lavro no céu da boca; posso sentir seu penetrar nas paredes rosadas, no teto reluz uma diretriz em sânscrito — sempre há uma primeira palavra inteligível, porém, inclinada a se emancipar; no impulso de seu desatino ela toma fôlego, um fôlego asmático; à medida que os degraus persistem, as larvas se empertigam no solo quase estéril, espicham o pescocinho como goma, na décima mastigação perdem o gosto e "bum!", explodem na cavidade a borracha e o vácuo preenche o palato. Há um labirinto em cada um de nós, o meu é assim, silencioso e obstrutivo, morre antes mesmo de ganhar vida; se cala no invólucro da própria voz.
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