Aividade de casa - final - Emar Vigneron

 

Luísa

 

Amanheceu, para desespero de Luísa. Ela estudava em um ótimo colégio, particular e muito elitista, mas não era rica. Estava ali porque sua tia era professora da instituição, tendo um bom desconto para a menina. Mas, de antemão, ela sabia que seria mais um dia difícil, pois era ignorada pelas colegas de classe, além de sofrer todo o tipo de ironia, discriminação e deboche. Afinal, ela era somente uma aluna pobre.

Apesar de não pertencer à mesma classe social que os colegas da escola, ela não era tão pobre e, sendo filha única, tinha roupas bonitas e era uma linda garota. Claro que não eram as roupas de griffe das colegas, nem os seus perfumes eram franceses. E nem tinha a beleza fina e poliglota das demais. Enfim, mais um dia.

Ao chegar, soube que haveria um teste surpresa e todos estavam assustados, mas Luísa não. Como excelente aluna que era, estava sempre preparada para qualquer surpresa como a de hoje.

Ela estava sem paciência para aturar as colegas se fazendo de "amigas" em dia de prova, ignorando-a logo após o término da aula. Existem momentos na vida em que ser boazinha não serve para nada, já que o outro não lhe dá o mínimo valor. Decidida, entrou na sala.

Todos a olhavam, com cadeiras vazias próximas para que ela pudesse se sentar, mas não queria mais ser humilhada. Como todos têm sempre algo de bom, ela possuía grande inteligência. Não era rica, mas era uma aluna exemplar. Riqueza pode mudar de mãos, mas jamais inteligência e cultura. Na verdade, rica era ela, que possuía o que os demais não teriam jamais, pois o dinheiro não compra tudo.

Chegou na mesa da professora e disse algo que a mulher sinalizou como positivo. Luísa se dirigiu à turma e disse:

- Antes do teste, a professora Marisa me autorizou a falar algumas palavras para vocês. Bem, como todos sabem, inclusive eu, vocês sempre me discriminaram por eu não ser rica. Entro e aguardo a hora da aula sozinha, no intervalo idem. Nunca fui convidada para aniversário de ninguém, apesar de, quando eu entrei nesta escola, convidei todos para ir ao meu. Não foram, claro. Nesses dois anos, vocês nunca se dignaram a me dar um "bom dia", me olhando como eu não existisse. Não morri por causa disso. Cada minuto isolada, eu estudava ou lia. Chegando o dia das provas ou testes, todos se tornam meus amigos de infância, enquanto dura a tarefa, sequer me agradecendo depois. Enchi o saco. Chega! A partir de hoje, nada mudará para mim, mas para vocês será diferente. Estudo sozinha em uma sala, em um colégio. Não tenho sequer conhecidos, portanto, a partir de hoje, sento-me, em dias de prova, ao lado da mesa do professor e vocês que usem a pouca dedicação que têm ao estudo.

Ela puxou a cadeira, sentou-se ao lado da mesa e fez, sentindo paz no coração, a prova perfeita.

Desta forma, Luísa estudou até o último ano e, na primeira tentativa, passou no vestibular.

Mais de 15 anos se passaram. A Dra. Luísa, excelente e renomada médica cardiologista, além de pesquisadora, foi chamada às pressas na emergência do hospital. Ao chegar lá, uma senhora estava muito mal, com fortes dores abdominais e a pressão altíssima. Lá estava a Dra. Lívia, chefe da cardiologia, que lhe disse que a senhora se recusava a ser atendida por uma negra, que, provavelmente, era uma péssima profissional. Luísa olhou o prontuário e viu se tratar de uma das "colegas de escola", preconceituosa ao extremo. Viu, também, que o atendimento era pelo SUS. Olhou para a senhora e disse:

- Não se lembra de mim? Luísa, sua colega pobre da escola. Mas, pelo jeito, pobre agora é você. Pelo SUS? Tão acabada e envelhecida. Lembra-se que eu disse que, enquanto vocês me ignoravam, eu ficava estudando ou lendo? Pois é. Talvez certa estivesse eu, investindo em um futuro profissional em vez de frequentar boutiques e lugares da moda. Mas chega de conversa, pois seu estado é muito grave e eu sou profissional, mas também humana. Esta médica que você recusou que te atendesse, é a chefe do departamento de cardiologia. Portanto, minha superior e mais preparada do que eu. É negra, o que não diminui sua competência, bem acima da minha. Se quiser, será atendida por ela, que é a melhor. Caso contrário, eu a atenderei. Complicado para uma pessoa preconceituosa e pobre. É isso ou procure outro hospital, mas o sua situação é grave, urgente e cirúrgica. Decida, pois cada segundo faz diferença em seu caso.

Com a voz embargada, a paciente disse: serei atendida pela Dra. Lívia. Me perdoem. Nada ganhei com tamanha soberba e preconceitos. Chega um momento em que a gente se defronta com a morte e vê o quanto errou na vida.

A dra. Lívia operou-a com sucesso. No dia da alta, ela estava com o marido e os filhos, quando as duas médicas chegaram. Ela sorriu, olhou para sua família e disse:

- Estas são as duas excelentes médicas que me atenderam. A dra. Luísa foi minha colega de escola até à faculdade, mas eu nunca a conheci pois, por ela ser pobre, eu a esnobava. A outra é a dra. Lívia, outra grande médica, que eu recusei ser atendida por ela, quando aqui cheguei, porque era negra. Como vêem eu sempre fui um monstro, me achava melhor do que os pobres, negros, gays e demais minorias. Agora choro, pois fui salva por duas pessoas que cresceram sendo pertencentes à essas minorias e a quem humilhei. Aprendam, meus filhos, a vida nos ensina da pior forma possível, quando um irmão é menosprezado por nós. E começou a chorar copiosamente.

Luísa lhe disse que chorar ia mexer com seu emocional e não faria bem para quem acabara de operar o coração; que ela não guardava rancor, pois o desdém das colegas, deu-lhe tempo suficiente para ser o que é hoje e que negros somos todos, filhos de um país miscigenado.

As três se despediram e Luísa disse para Lívia:

- O que falta no mundo não é somente a questão do desrespeito às diferenças, mas sim uma imensa falta de amor fraterno.

E as duas seguiram em direção aos demais pacientes.

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